Dialética da crise: Uma abordagem interdisciplinar sobre superação organizacional

16/10/2026 em Opinião

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Dialética da crise: Uma abordagem interdisciplinar sobre superação organizacional

Este artigo analisa a crise guineense não como fatalidade histórica, mas como resultado de um padrão comportamental do homem político nacional. Partindo da máxima "Toda crise traz dois caminhos: a desculpa para parar e a razão para recomeçar melhor", argumenta-se que a Guiné-Bissau tem sistematicamente optado pelo primeiro caminho, transformando a crise num instrumento de demonstração de força e num álibi para a incapacidade de adaptação. O estudo propõe uma leitura crítica da crise permanente como falha de gestão, de ética e de cidadania.

Palavras-chave: Crise Política Guineense, Resiliência Institucional, Homem Político inadaptável.

A Guiné-Bissau conquistou a independência com um projeto de Estado exemplar, mas construiu a sua pós-independência com uma sucessão de ruturas. Não há, na nossa história recente, desenvolvimento linear. Há ciclos de esperança interrompidos por crises fabricadas.

O erro analítico mais grave é tratar a crise guineense como um acidente, um azar ou uma conspiração externa. Este artigo defende a tese oposta: a crise guineense é endógena, é política e é, sobretudo, metodológica. É consequência direta de um modelo de exercício do poder que confunde força com autoridade e permanência no cargo com competência para governar.

A crise, em si, é neutra. O que a torna destrutiva na Guiné-Bissau é a atitude do seu principal ator: o homem político.

Primeiro caminho: A crise como demonstração de força e álibi da incompetência.

Na Guiné-Bissau, a crise deixou de ser exceção para se tornar método de governação. Do ponto de vista da Administração Pública e da Ciência Política, identificou-se aqui o fenómeno que chamo de "Síndrome da Força Improdutiva".

O homem político guineense, na sua maioria, não se adaptou à exigência do Estado moderno. Não transitou do paradigma do combatente para o paradigma do gestor. Por falta dessa capacidade de adaptação, utiliza a crise para três fins:

a) Demonstração de força em vez de demonstração de competência: Dissolver um governo, demitir um parlamento, prender um adversário, fechar uma instituição. São atos apresentados como força, mas que na ciência da administração são sinais clássicos de fraqueza institucional. Quem tem projeto, não precisa de gritar. Quem tem competência, não precisa de impor medo. A força bruta tem sido o substituto da falta de argumentos técnicos e de visão estratégica.

b) Mecanismo de defesa e vitimização: A narrativa é sempre a mesma: "Não governamos porque nos bloquearam". "Não desenvolvemos por causa da oposição". "O país não avança por causa da comunidade internacional". É a paralisia por justificação. Transfere-se a culpa para fora, para não se fazer a autocrítica por dentro.

c) Legitimação da inércia e do saque: A crise permanente é extremamente rentável. Em estado de crise, não há prestação de contas, não há concurso público transparente, não há plano a longo prazo. Há apenas gestão de emergência, onde tudo é justificado. É neste turbilhão que se normaliza o fracasso e se adiam as reformas essenciais da Administração, da Educação e da Justiça.

Este caminho explica porque desde 1973 tivemos dezenas de golpes, tentativas de golpe, governos derrubados e legislaturas interrompidas. Não é o povo guineense que é ingovernável. É o modelo político que é inadaptável.

Segundo caminho: O recomeço que a Guiné-Bissau ainda não experimentou

Este caminho, que o país teima em não trilhar, exige o que a literatura chama de “Resiliência Transformativa”. Não é voltar ao que éramos antes da crise de 1980,  1998, de 2012 ou de 2025. É usar cada rutura para construir um Estado diferente e melhor.

Para o homem político guineense, recomeçar melhor exigiria três ruturas que ainda não fez:

1. Leitura crítica e humildade intelectual -  Entender que a crise guineense não é jurídica, é ética. Não é falta de leis, é falta de cultura de cumprimento da lei. O político precisa entender que o mundo mudou: governar hoje exige dados, exige planeamento, exige saber ouvir. A teimosia e o orgulho pessoal não são projeto de Estado.

2. Reinvenção estratégica - Do homem forte ao homem institucional: Como ensina Peter Drucker, as organizações que sobrevivem não são as mais fortes, são as mais adaptáveis. A Guiné-Bissau precisa urgentemente de trocar a cultura do "homem forte" pela cultura da "instituição forte". O poder não pode estar no nome do líder, tem que estar na força da Constituição, do Tribunal, da Assembleia, da Escola.

3. Sentido ético de propósito e Educação para a Paz -  Recomeçar melhor é fazer diferente. É governar com foco no cidadão e não na fação. É aqui que entra a Educação para a Paz e Cidadania. Enquanto ensinarmos nas nossas escolas e partidos que o adversário é inimigo a abater, e não um cidadão com ideia diferente, continuaremos a produzir políticos incapazes de diálogo e de compromisso, que são a base de qualquer democracia.

A crise como espelho

A história recente da Guiné-Bissau prova a nossa máxima inicial. Tivemos todas as razões para recomeçar melhor após cada crise. Tínhamos apoio internacional, tínhamos recursos naturais, tínhamos um povo resiliente. Mas escolhemos, quase sempre, o caminho da desculpa.

A crise guineense, portanto, não revela a fraqueza do povo. Ela revela, de forma crua, a falta de preparação, a falta de adaptabilidade e a falta de sentido de Estado de grande parte da nossa classe política.

Enquanto a política for vista como um ringue para demonstrar quem é mais forte, e não como um laboratório para demonstrar quem serve melhor, continuaremos neste ciclo.

Toda crise traz dois caminhos. A Guiné-Bissau já experimentou exaustivamente o caminho da desculpa, da força e da paralisia. Está na hora, com coragem e humildade, de experimentar o segundo caminho: o da razão, da reforma e do recomeço melhor.

A escolha, ontem como hoje, continua a ser nossa. Mas o tempo para escolher está a esgotar-se.

Por: Mamandin Indjai,Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para a Paz e Cidadania / Bissau:16/10/2026

Referências em:

MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. UNESCO, 2000.

DRUCKER, Peter. Inovação e Espírito Empreendedor. Editora Pioneira, 1986.

UNESCO. Educação para a Transformação: Cidadania e Paz.

Por CNEWS

16/10/2026